A morte e o legado de Francisco: o papa que pediu por terra, teto e trabalho

abril 24, 2025 - 09:11
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A morte e o legado de Francisco: o papa que pediu por terra, teto e trabalho

O Vaticano confirmou, na manhã desta segunda-feira (21), a morte do papa Francisco. O anúncio foi feito diretamente da Capela da Casa Santa Marta, pelo cardeal Kevin Joseph Farrell, camerlengo da Câmara Apostólica. “Às 7h35 desta manhã (2h35 no Brasil), o bispo de Roma, Francisco, retornou à casa do Pai”, declarou. O comunicado destacou a dedicação do pontífice ao serviço da Igreja e, sobretudo, aos mais pobres.

O último gesto público do papa aconteceu durante a celebração do Domingo de Páscoa (20), quando apareceu na sacada da Basílica de São Pedro para a tradicional mensagem Urbi et Orbi. Emocionado, saudou os fiéis e desejou uma “feliz Páscoa” antes de passar a palavra ao monsenhor Diego Ravelli, que leu seu discurso final. Em tom firme, Francisco pediu por um cessar-fogo em Gaza e alertou para o avanço do antissemitismo no mundo. “Não é possível haver paz onde não há liberdade religiosa ou liberdade de pensamento”, afirmou.

Jorge Mario Bergoglio, nascido em Buenos Aires, foi eleito papa em 2013, tornando-se o primeiro latino-americano a assumir o posto. Escolheu o nome Francisco inspirado em São Francisco de Assis, símbolo da simplicidade e da opção pelos pobres. Desde o início de seu papado, colocou no centro do debate temas sociais, como a desigualdade, o desemprego, a exclusão e a crise ambiental.

Francisco será lembrado como o papa que falou a linguagem do povo e caminhou ao lado dos trabalhadores. Seus encontros com movimentos populares – em Roma, Bolívia e outros países – marcaram a trajetória de um líder que enxergava no trabalho um direito sagrado. “Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados. Reivindicar isso não é nada raro, é a doutrina social da Igreja”, disse.

Sua voz ecoou entre os que vivem à margem. Nas palavras simples e firmes, reafirmava que a luta por dignidade não é um capricho ideológico, mas um clamor humano. Defendeu que a economia deve estar a serviço do povo, criticou a “globalização da indiferença” e apontou a “globalização da esperança” como caminho para um mundo mais justo.

Entre os que se sentiram acolhidos por Francisco estão movimentos como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Em 2024, o papa se encontrou com João Pedro Stedile, em Verona, Itália, durante um evento que reuniu lideranças engajadas na construção da paz. Na ocasião, Francisco abençoou a bandeira do movimento. Para Stedile, o gesto do pontífice reafirma a importância da luta pela terra e pelos direitos sociais. “Malditas sejam todas as cercas. Malditas todas as propriedades privadas que nos privam de viver e de amar”, disse, citando Pedro Casaldáliga, bispo defensor dos direitos humanos.

Frei Sérgio Görgen, do Instituto Cultural Padre Josimo, reforça que o impacto de Francisco ultrapassa fronteiras e vai permanecer por muitos anos. “Ele marcou pela simplicidade, pela autenticidade na vivência do Evangelho e pela visão de futuro nos temas ambientais e sociais.”

A morte de Francisco deixa um vazio, mas também um legado vivo. Um papa que não se limitou aos rituais eclesiásticos, mas se comprometeu com os dramas da humanidade. Que fez da fé uma ponte com o mundo real e colocou a Igreja ao lado dos que resistem.

Sua vida e suas palavras agora pertencem à história. Mas seus ensinamentos continuam desafiando governos, economias e estruturas sociais a reconhecerem que terra, teto e trabalho não são favores, são direitos. Direitos que, como ele dizia, "nascem do Evangelho e florescem entre os pobres".

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