Artistas mantêm viva a alma cultural de Paranaguá
Paranaguá é rica em belezas naturais, é centenária e conta com um dos maiores portos do País, mas é impossível pensar apenas nesses aspectos. O município conta com uma riqueza que muitas vezes não aparece nos cartões-postais, mas que está presente nos palcos, nas salas de aula, nos ateliês, nos centros culturais e nas ruas: a arte.
Paranaguá respira cultura graças a artistas que dedicam suas vidas à música, à dança, ao teatro e às mais diversas formas de expressão artística. São pessoas que transformam talentos em pontes de conexão, preservam memórias e ajudam a construir a identidade da cidade.
O som de uma trajetória
Entre esses nomes está a violinista e professora Ana Carolina da Silva, que há mais de duas décadas dedica sua vida à música e, parnanguara de coração, encontrou na cidade o lugar onde consolidou sua trajetória artística.
Ana Carolina cresceu em uma família profundamente ligada à música. O incentivo dos pais foi decisivo para sua formação e para a construção da carreira que hoje inspira alunos e plateias. “A música sempre esteve no meu DNA. Minha mãe tem uma voz incrível e meu pai é jornalista, produtor musical, radialista e maestro. Eles investiram pesado na formação musical minha e dos meus irmãos. Esse amor e dedicação foram a minha maior inspiração”, relembra.
Hoje ela divide a rotina entre aulas particulares, apresentações em eventos, cerimônias e instituições culturais da cidade. Foi justamente em Paranaguá que ela percebeu que a arte poderia ser mais do que uma paixão: poderia se tornar sua profissão. “Quando descobri o diagnóstico de autismo da minha filha, percebi que precisava de mais flexibilidade para cuidar dela. Foi nesse momento que decidi abandonar o CLT e viver da minha arte. Hoje, consigo unir a maternidade àquilo que amo fazer”, conta.
A caminhada, porém, não foi fácil. Ana Carolina enfrentou um período de afastamento do violino durante a gravidez e precisou superar um processo emocional delicado para retomar sua relação com o instrumento. “Cheguei a não querer ver o violino na minha frente. Vencer esse bloqueio emocional e reencontrar minha identidade através da música foi o maior desafio que já superei”, observa.
Para ela, os artistas possuem uma missão que vai muito além do entretenimento. “Nós resgatamos, preservamos e reescrevemos a história da cidade. O artista traduz as vivências, os sotaques e as tradições locais para o resto do mundo. Isso gera pertencimento e orgulho na população”, enfatiza. Seu desejo é aproximar os jovens da música instrumental e clássica, mostrando que existe um universo de sensibilidade além das telas. “Em casa temos um lema que meu pai, o Maestro Eliel, sempre diz: ‘Cada gota do meu sangue é uma nota musical’. É esse amor que precisamos transmitir para as novas gerações”, salienta.
Música que transforma vidas
Outro nome que ajuda a escrever a história cultural de Paranaguá é Márcio José da Silva, mais conhecido como Digue. Há mais de 28 anos na música, ele construiu uma trajetória marcada pela dedicação ao ensino, à formação de novos músicos e ao fortalecimento da cena cultural do litoral paranaense.
Durante sua carreira, atuou como instrumentista, professor e integrante da Orquestra Municipal de Paranaguá, além de participar de apresentações ao lado de diversos artistas e bandas da região. “A música me mostrou que era possível expressar sentimentos, contar histórias e criar conexões profundas entre as pessoas. Foi essa descoberta que me motivou a seguir nesse caminho”, analisa.
Hoje, Digue atua como professor no Centro Cultural Mattar Leister e no Ateliê Artes, onde compartilha conhecimento e incentiva o desenvolvimento artístico de seus alunos. Para éle, a arte possui um papel transformador na sociedade. “A maior inspiração sempre foi o poder transformador da música. Ver pessoas emocionadas durante uma apresentação, observar alunos evoluindo e ganhando confiança através da arte é algo que não tem preço”, frisa.
Entre os momentos mais marcantes da carreira está a fundação da banda Frenesi, no ano 2000, ao lado de amigos músicos. “Mais do que um projeto musical, a Frenesi representou um sonho construído com muito trabalho, dedicação e paixão pela música”, ressalta.
Ao refletir sobre a importância dos artistas para a cidade, Digue destaca que eles são essenciais para a construção da identidade cultural local. “Os artistas preservam tradições, criam novas referências e promovem o acesso da população à cultura. Além disso, ajudam a formar cidadãos mais sensíveis, criativos e conectados com sua própria história”, pontua.
Ele acredita que ampliar o acesso à educação cultural é fundamental para o futuro. “Precisamos investir cada vez mais em música, teatro, dança e artes visuais. Quando os jovens têm acesso à arte, descobrem novas possibilidades para suas vidas”, observa.
A dança que atravessa gerações
A história do professor e bailarino Anthar Lacerda também se confunde com a trajetória cultural de Paranaguá. Há três décadas na dança, Anthar Lacerda iniciou sua caminhada nos anos de 1990 estudando flamenco e danças árabes. Mais tarde, integrou grupos de danças urbanas e aprofundou seus conhecimentos em danças de salão. Seu primeiro contato com a arte aconteceu ainda jovem, em Paranaguá. “Comecei aqui, aos 17 anos, participando das atividades de dança do antigo CELEM. Depois entrei para todos os grupos de dança que existiam na época: grupo português, fandango, grupo árabe, danças urbanas e também participei das atividades carnavalescas como mestre-sala”, detalha.
O dançarino permanece residindo em Paranaguá, contudo, a busca por aperfeiçoamento o levou para Curitiba e, posteriormente, para São Paulo, onde passou a integrar uma das maiores redes de escolas de dança do país. “Quando você pega gosto pela arte, vai se aprofundando e buscando mais conhecimento. Chega um momento em que precisa sair para aprender mais”, afirma.
O reconhecimento profissional veio em 2002, com a obtenção do DRT (documento profissional). “Foi uma conquista importante. Era o reconhecimento profissional de tudo aquilo que eu havia batalhado para construir”, comemora.
Talento, dedicação e emoção
A trajetória, no entanto, exigiu sacrifícios. Durante anos, Anthar Lacerda conciliou a dança com o trabalho em uma empresa de informática, viagens constantes para ministrar aulas e apresentações em diversas cidades do país, além dos estudos universitários. “O desgaste físico e emocional era muito grande. Quem vem de uma família simples e escolhe a arte nem sempre encontra incentivo. Muitas vezes ouvimos que isso não tem futuro. Mas a arte é um dom que nos ensina a superar obstáculos”, destaca.
Para Anthar Lacerda, ampliar as oportunidades de formação cultural é essencial para aproximar os jovens da arte. “Se queremos que as novas gerações desenvolvam interesse pela arte, precisamos oferecer acesso. Hoje, ainda muitos precisam se deslocar para outras cidades para estudar, o que dificulta o acesso para quem tem menos recursos”, avalia.
Paranaguá tem cheiro de mar, de história e de tradição, mas tem também o perfume da arte, um aroma que se espalha pelos acordes de um violino, pelas notas de uma canção, pelos movimentos de uma dança e pelo trabalho de quem dedica a vida a manter a cultura viva.
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