Estudo identifica 142 empresários do agronegócio envolvidos na tentativa de golpe de Estado
Um levantamento divulgado nesta quarta-feira (25) pelo observatório De Olho nos Ruralistas identificou 142 empresários ligados ao agronegócio que financiaram ou apoiaram logisticamente atos antidemocráticos entre o segundo semestre de 2022 e os ataques de 8 de janeiro de 2023, em Brasília.
O estudo faz parte do relatório "Agrogolpistas", que analisou a participação de pessoas físicas e jurídicas do setor na estruturação de acampamentos golpistas, bloqueios de rodovias e outras ações ligadas à tentativa de ruptura institucional após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais.
A identificação dos empresários foi possível a partir da análise de três bases de dados principais:
a lista de 551 nomes investigados por financiamento de atos antidemocráticos;
os 898 réus já responsabilizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF);
e os indiciados da Operação Lesa Pátria, conduzida pela Polícia Federal.
Foram consideradas também informações públicas do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e da Receita Federal. As confirmações cruzaram dados de propriedades rurais, empresas agropecuárias e beneficiários de programas do Ministério da Agricultura.
Segundo o relatório, os 142 nomes confirmados representam cerca de 10% dos investigados, mas os autores do estudo alertam que o número pode ser ainda maior, devido a limitações no acesso a dados por causa da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Os estados de Mato Grosso, Goiás e Bahia concentram 71% dos nomes identificados. Apenas Mato Grosso responde por 74 empresários e produtores, com destaque para o município de Sorriso, maior polo de produção de soja do mundo.
De Sorriso partiram 56 caminhões rumo ao Quartel-General do Exército em Brasília durante os atos antidemocráticos. Destes, 28 pertencem a duas famílias interligadas: os Bedin, com 15 veículos, e os Lermen, com 13.
O empresário Argino Bedin, conhecido como “pai da soja” de Sorriso, é apontado como líder do grupo. Ele chegou a prestar depoimento à CPMI do 8 de Janeiro, mas permaneceu em silêncio. Dias depois, foi homenageado em um evento na cidade.
O relatório também destaca que os empresários identificados mantêm relações comerciais com bancos e multinacionais, como Santander, Rabobank, John Deere, BTG Pactual e Syngenta — esta última ligada à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).
Seis dos empresários envolvidos ocupam cargos de liderança na Aprosoja (Associação Brasileira dos Produtores de Soja), incluindo Christiano da Silva Bortolotto, ex-presidente da entidade em Mato Grosso do Sul. Ele também lidera o Sindicato Rural de Amambai, região marcada por conflitos com o povo Guarani-Kaiowá.
Impunidade e falta de responsabilização
Apesar das evidências reunidas pelo relatório, nenhum dos 142 empresários identificados foi preso ou denunciado formalmente até o momento. A maioria também não foi incluída nas denúncias apresentadas pela Procuradoria-Geral da República ou nos processos do STF.
O levantamento destaca ainda o depoimento do ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, Mauro Cid, que afirmou ter recebido R$ 100 mil em espécie das mãos do general Braga Netto. Segundo Cid, o dinheiro teria vindo de um "empresário do agro", cuja identidade não foi revelada.
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