Idosos ganham voz por meio da literatura em projeto da Unespar no CRAS de Paranaguá
O que começou como uma proposta de fortalecimento de vínculos sociais dentro do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) do bairro Nilson Neves, em Paranaguá, se transformou em um projeto literário que conecta universidade e comunidade por meio da leitura. A iniciativa teve início com o educador social Marlon Renan Graça, dentro do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, voltado a pessoas em situação de vulnerabilidade social.
“A gente entendeu a literatura como uma ferramenta poderosa para trabalhar os vínculos familiares e comunitários. Começamos com encontros mensais, e o grupo foi crescendo. Hoje temos uma turma engajada, que não só participa, como também produz. Já conseguimos publicar uma poesia de um dos integrantes e temos um livro com as histórias deles previsto para o ano que vem”, conta Marlon.
O projeto conta com o apoio da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR), por meio do curso de Letras – Português. Atualmente, a ação é desenvolvida em parceria com estudantes da universidade, sob a coordenação dos professores Wendel Cássio Christal e Cristiane Pagoto.
“É um projeto pelo qual temos muito carinho. Os alunos da UNESPAR preparam os textos com antecedência, e vêm até o CRAS para fazer a mediação das leituras com os participantes, principalmente mulheres e idosos. É uma ação que promove escuta, reflexão e uma troca afetiva com a literatura”, destaca o professor Wendel.
A aluna do 4º ano de Letras, Ana Paula, relata que o projeto é de extrema importância, tanto na formação quanto no aspecto pessoal. “Cada encontro é diferente, sempre ouvimos histórias que nos marcam. Isso nos transforma como estudantes e, também, como seres humanos”, afirma Ana Paula Pontes.
“Nós começamos como voluntárias, por curiosidade, e logo nos envolvemos. Todo o processo é pensado com muito cuidado. Lá na UNESPAR, discutimos os textos, analisamos as possibilidades e planejamos as atividades que traremos para cá. Cada mês tem um tema, um texto e uma proposta nova de conversa”, explica Noeli da Silva Caetano, também do 4º ano.
Segundo elas, os idosos esperam com entusiasmo por cada encontro. “Eles já deixam anotado na agenda, se organizam, se preparam. Alguns até sugerem autores. Uma vez pediram para conhecer Machado de Assis — e a gente trouxe! Essa troca é fundamental. A gente não vem aqui para ensinar, mas para construir junto”, completa Ana Paula.
A participação ativa dos frequentadores do CRAS foi além das rodas de leitura. Em 2024, o senhor Rubens Estevan Calixton, de 77 anos, integrante do grupo de idosos, participou do evento “XXI Varal de Poesias: A poesia dos povos originários”, promovido pela UNESPAR, declamando seus versos durante a cerimônia. O evento contou com um concurso de poemas, e dois textos dele foram selecionados e publicados em um livro.
“O senhor Rubens esteve presente na noite do evento, declamou seus poemas e agora faz parte da publicação. Por isso esse momento aqui no CRAS é tão especial: estamos lançando o livro com a presença dele e entregando os exemplares impressos aos participantes”, destaca a professora Cristiane Pagotto.
Mesmo com a versão digital disponível, o contato com o livro físico é considerado essencial. “O exemplar impresso cria um vínculo afetivo com a leitura. Segurar o livro, sentir o papel — isso tudo aproxima ainda mais a literatura das pessoas. É uma valorização do que foi vivido e construído junto”, afirma Cristiane.
Entre os participantes, Rubens é um dos mais ativos. Ele teve dois poemas publicados no livro do Varal de Poesias, e nesta quarta (10) ele recebeu o exemplar impresso com orgulho. “Sempre quis escrever poesia, mas, por conta do trabalho, nunca tive tempo. Só depois que me aposentei é que pude me dedicar a isso. Comecei pelo Sesc, depois entrei em outras atividades, como o curso de alfabetização da Catedral, que faço junto com minha esposa e com muito carinho”, conta Rubens.
“Eu queria ter começado mais cedo, mas a vida nem sempre é como a gente deseja. A gente vive como dá. Por isso eu digo: tem quem acredita que não existe milagre, e tem quem acredita que a vida é um milagre. Eu sou desse segundo tipo”, completou o poeta.
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