Paraná é o 1º estado a usar Inteligência Artificial do Google no tratamento do câncer
Uma solução inovadora no combate ao câncer, nunca antes testada no Brasil, foi adotada pelo Governo do Paraná e implantada em dois hospitais de referência. Desde abril, o Hospital do Câncer de Londrina e o Hospital São Vicente, em Guarapuava, utilizam a ferramenta Capricórnio, do cardápio do Google, para acelerar a identificação de terapias oncológicas de forma personalizada. Dois meses depois, os resultados começam a aparecer e podem transformar tratamentos no Estado.
O impacto no atendimento e no diagnóstico é direto. Com a ferramenta, criada pela gigante de tecnologia em parceria com um hospital da Holanda, o médico consegue organizar e relacionar informações do paciente em tempo significativamente menor do que os processos tradicionais de revisão manual da literatura científica.
Na prática, o profissional cruza as informações obtidas por meio do PubMed com dados do paciente, como histórico clínico, mutações genéticas, testes de sensibilidade a medicamentos e respostas anteriores ao tratamento. Depois, o Capricórnio levanta métricas e indicadores de artigos científicos e apresenta possibilidades terapêuticas personalizadas para aquele caso.
NOVA ROTA DE TRATAMENTO – Em Guarapuava, no Centro-Sul, um estudo de caso chamou a atenção, de um paciente atendido há mais de um ano no Hospital de Caridade de São Vicente. Com um câncer de origem desconhecida, o caso desafiou a equipe médica desde o início, porque foram encontradas metástases nos linfonodos, ossos e pleura.
O oncologista Nelson Morozini explica que a plataforma do projeto Capricórnio foi fundamental para a tomada de decisão médica, tanto no cruzamento de dados moleculares como da otimização do suporte e manejo de complicações no Sistema Único de Saúde (SUS).
“A ferramenta identificou que esse padrão atípico frequentemente está associado à instabilidade genômica, o que acendeu o alerta para solicitar um painel genético focado. Se confirmado, isso abre as portas para o uso de imunoterapia no futuro”, explicou o oncologista Nelson Morozini. Para ele, a IA funciona como um segundo cérebro da reunião multidisciplinar. “Ela não substitui o médico, mas acelera o acesso a dados científicos complexos, garantindo que um paciente com um tumor raríssimo no SUS receba uma conduta altamente personalizada, comparável aos melhores centros privados do mundo”, afirmou.
PROJETO CAPRICÓRNIO – Desenvolvido em parceria com o Princess Máxima Center, situado na Holanda e considerado o maior centro de Oncologia Pediátrica da Europa, o Carpicórnio otimiza a pesquisa clínica ao reunir dados do PubMed - banco de dados global mantido pela Biblioteca Nacional de Medicina do National Institutes of Health, principal agência do governo dos EUA responsável por pesquisas biomédicas e de saúde pública - que contém mais de 35 milhões de artigos biomédicos e cresce de 1,5 milhão a 1,7 milhão de novos artigos biomédicos publicados por ano.
Todos os arquivos são disponibilizados no BigQuery, plataforma de armazenamento e gerenciamento de dados do Google Cloud, onde, através de busca vetorial, os médicos conseguem realizar pesquisas de maneira semântica, indo além do cruzamento de palavras-chave exatas. Na prática, a ferramenta processa em minutos uma extensa literatura e cruza aos dados individualizados e anonimizados do paciente.
O Capricórnio é um exemplo claro de como a Inteligência Artificial pode transformar a relação do médico com a evidência científica. O que estabelecemos no Paraná é um modelo eficaz e que pode ser facilmente replicado em outras práticas clínicas, como neurologia e saúde da mulher. Queremos garantir que profissionais de saúde em qualquer especialidade tenham acesso rápido e preciso ao conhecimento científico global para tomar decisões baseadas em dados”, afirma.
PIONEIRISMO – A adoção da tecnologia posiciona o Paraná em uma área estratégica de convergência entre inteligência artificial generativa, medicina de precisão e dados clínicos. A implantação do Capricórnio integra uma agenda ampla de transformação digital do Estado voltada à aplicação de soluções de inteligência artificial em serviços públicos.
O projeto integra o programa Transforma IA, que abriga uma série de soluções de inteligência artificial que o Governo tem implementado para modernizar a gestão pública e melhorar os serviços oferecidos à população. A iniciativa prevê investimentos em projetos voltados a áreas como segurança pública, habitação, agricultura e educação.
Conforme o secretário da Inovação e Inteligência Artificial, Marcos Stamm, a ideia é expandir a tecnologia para outras unidades hospitalares do Paraná. “Estamos falando de combate ao câncer e a IA está nos dando esse instrumento. O projeto foi incubado e naturalmente os resultados começaram a sair. Junto com a Secretaria da Saúde, vamos estabelecer os critérios para ampliar a usabilidade da plataforma”, detalhou.
Na área da saúde, a utilização de inteligência artificial envolve protocolos rigorosos de governança, proteção de dados pessoais, rastreabilidade e supervisão médica. A ferramenta utiliza apenas informações anonimizadas, seguindo diretrizes de segurança e conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Os modelos de projetos são disponibilizados ao Estado por meio do contrato da Secretaria da Inovação e Inteligência Artificial (SEIA) com a Celepar. A SEIA é responsável pela gestão e implantação de serviços de Inteligência Artificial na administração pública, conforme a Lei nº 22.324/2025. A Celepar, por sua vez, mantém contrato com a Google para o fornecimento das soluções tecnológicas utilizadas nos projetos.
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