Profissionais do SAMU protestam contra transferência da Central de Regulação do Litoral para Curitiba
“Estamos na luta, e não é só por nós: é pela população do Litoral”. Com essa declaração, a técnica em enfermagem e socorrista do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), Anna Roberta Fontes, resumiu o sentimento dos profissionais que participaram, na última terça-feira (1º), de um protesto na Câmara Municipal de Paranaguá. A mobilização ocorreu em resposta à decisão do Consórcio Intermunicipal de Saúde do Litoral do Paraná (CISLIPA), que pretende transferir a central de regulação do SAMU do Litoral para Curitiba.
A mudança, prevista para ocorrer até o segundo semestre deste ano, alterará a forma como as ligações para o 192 são recebidas e encaminhadas. Atualmente, as chamadas feitas a partir de qualquer cidade do Litoral são atendidas em Paranaguá, por profissionais que conhecem bem a região. Com a nova proposta, os pedidos de socorro passarão por uma triagem em Curitiba antes de serem direcionados às equipes locais.
Segundo Anna Roberta, além de colocar empregos em risco, a transferência pode comprometer a agilidade do atendimento. “Ainda não sabemos quantos serão demitidos, mas pode ser 30, 50, até 87 profissionais. O que acontece nesses casos é que começam tirando a regulação, depois os motoristas, depois os técnicos, enfermeiros... e tudo vai sendo terceirizado. Quem mais sofre é a população”, alertou.
A decisão foi aprovada pela maioria dos prefeitos dos sete municípios que integram o CISLIPA, sob a justificativa de reduzir custos para as prefeituras. O diretor executivo do consórcio, Daniel Fangueiro, afirmou que a central única em Curitiba permitirá otimizar recursos e padronizar os protocolos de atendimento.
“A ideia é que, com a integração à central de Curitiba, o SAMU Litoral tenha mais estabilidade e eficiência. Já temos esse modelo funcionando com o 190 da Polícia Militar”, argumentou.
No entanto, profissionais do SAMU e lideranças locais discordam da comparação. Durante a sessão legislativa em que os trabalhadores participaram, o presidente da Câmara de Paranaguá, Adalberto Araújo (Republicanos), manifestou preocupação com a mudança.
“Os servidores do CISLIPA e do SAMU nos procuraram para falar sobre essa decisão da Secretaria de Estado da Saúde. Querem tirar a central de regulação de Paranaguá e levar para Curitiba. Isso nos preocupa porque o conhecimento territorial faz toda a diferença na hora do socorro”, afirmou.
Ele citou como exemplo a dificuldade que atendentes da capital podem ter em localizar endereços específicos do Litoral. “Se alguém liga e diz que precisa de socorro na rua 33, na Ilha dos Valadares, será que quem está em Curitiba vai entender rapidamente? Vamos buscar apoio de deputados estaduais, prefeitos e autoridades estaduais para impedir essa mudança. Não podemos aceitar que isso aconteça com o SAMU”, declarou o vereador, que também convocou a sociedade a se mobilizar.
Entre as principais preocupações estão a dificuldade de comunicação em áreas sem cobertura de celular, como comunidades insulares e rurais, e o aumento da demanda por atendimento durante a temporada de verão.
A central de regulação em Paranaguá conta com médicos, técnicos de enfermagem, rádio-operadores e atendentes, que atuam como servidores efetivos, comissionados ou terceirizados. Com a transferência, parte desses profissionais pode ser realocada para outras funções ou demitida.
“O consórcio administra os contratos e está analisando com os municípios a possibilidade de redistribuição. Também estamos em conversa com a Secretaria de Estado da Saúde (SESA) para avaliar se parte dos trabalhadores pode ser aproveitada na nova central em Curitiba”, disse Fangueiro.
Mesmo com essas garantias, a insegurança persiste. “Não há certeza de nada. Não é apenas uma questão de emprego, mas do direito da população a um serviço eficiente. O atendimento precisa ser feito por quem conhece a realidade do Litoral”, reforçou Anna Roberta.
A manifestação na Câmara contou com o apoio de vereadores de Paranaguá, e a mobilização deve se expandir para os demais municípios atendidos pelo consórcio: Antonina, Guaraqueçaba, Guaratuba, Matinhos, Morretes e Pontal do Paraná.
“Vamos buscar o apoio de parlamentares dessas cidades. Ainda há tempo para reverter essa decisão”, afirmou Anna Roberta.
Enquanto a transferência é planejada, o CISLIPA anunciou algumas ações para minimizar os impactos. Entre elas, estão a criação de uma base descentralizada no bairro Padre Jackson, em Paranaguá, a aquisição de uma ambulancha para atendimento nas ilhas e o fortalecimento do resgate aeromédico.
“O objetivo é manter a qualidade do atendimento do SAMU no Litoral, mesmo com a regulação sendo feita em Curitiba. Sabemos que haverá um período de adaptação, mas estamos comprometidos com a continuidade do serviço”, garantiu Fangueiro.
O número 192 continuará operando normalmente. A diferença é que, ao ligar, o chamado será atendido em Curitiba. As autoridades afirmam que isso não afetará o tempo de resposta, mas moradores e servidores ainda têm dúvidas.
“A luta continua. Não vamos permitir que levem daqui um serviço essencial que já funciona bem e salva vidas”, concluiu Anna Roberta.
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