Voz do Trabalhador – Mercados querem trabalho por hora, mas ignoram realidade dos trabalhadores: baixos salários, jornadas exaustivas e precarização
Na tentativa de solucionar a “dificuldade” de contratar trabalhadores, representantes do setor supermercadista voltaram a defender, nesta segunda-feira (12), durante a abertura do Apas Show em São Paulo, a ampliação do contrato de trabalho por hora. Segundo os empresários, o modelo seria mais “moderno”, “flexível” e atenderia aos “novos desejos” da juventude trabalhadora. A realidade, no entanto, é bem diferente: o que se vê é um aprofundamento da precarização, com salários insuficientes, jornadas exaustivas, ausência de condições dignas de trabalho e cada vez menos proteção trabalhista.
O presidente da Associação Paulista de Supermercados, Erlon Ortega, afirmou que há 35 mil vagas abertas no setor e que “o jovem não quer mais o modelo antigo”. Sua proposta: generalizar a contratação horista, para que o trabalhador possa “atuar a qualquer momento”. A fala, embalada por um discurso de liberdade de escolha, escamoteia o que está por trás dessa nova “flexibilidade”: instabilidade, imprevisibilidade de renda e desmonte de garantias básicas.
O modelo de contrato intermitente, legitimado pela reforma trabalhista de 2017 e considerado constitucional pelo STF em 2024, tem sido criticado por especialistas e entidades trabalhistas por favorecer a precarização. A possibilidade de o trabalhador ser chamado apenas quando conveniente para o patrão significa, na prática, que ele pode passar semanas ou meses sem qualquer rendimento — sem direito a seguro-desemprego, com férias e 13º proporcionais que mal cobrem as necessidades básicas.
A fala do presidente da Abras, João Galassi, reforça esse viés empresarial disfarçado de “inovação”: “Cada semana é uma semana. Ela tem que ter o direito de trabalhar quantas horas ela desejar”. No entanto, no Brasil de hoje, o que falta à maioria dos trabalhadores não é liberdade para escolher quando trabalhar, mas oportunidades de empregos dignos, com estabilidade, salários decentes e jornada justa. O modelo horista pode funcionar para o patrão, que adapta sua folha conforme o fluxo de clientes, mas é uma armadilha para o trabalhador, que vive sob constante incerteza.
A comparação feita com motoristas de aplicativo também é reveladora — e alarmante. Segundo o Ipea, as condições de trabalho desses profissionais só pioraram nos últimos anos. Com jornadas longas, ausência de contribuição previdenciária e queda de rendimentos, eles são o retrato da falsa promessa da “autonomia” vendida por plataformas e, agora, repetida pelo setor varejista. Em 2022, o rendimento médio desses trabalhadores caiu para R\$ 2,4 mil, com aumento das jornadas superiores a 49 horas semanais.
Nos supermercados, não é raro ver funcionários enfrentando sobrecarga de trabalho, falta de pausas adequadas, ambientes insalubres e salários que mal ultrapassam o mínimo. Esses postos, longe de serem a “porta de entrada para o trabalho formal”, como afirma Ortega, têm se tornado armadilhas de precarização. A rotatividade é alta, os direitos são mínimos, e os sindicatos enfrentam cada vez mais dificuldade para organizar categorias esmagadas por contratos frágeis e desiguais.
A defesa do contrato por hora, portanto, não é sobre modernidade — é sobre redução de custos e ampliação do controle patronal. É preciso questionar: qual qualidade de vida é possível para quem vive à espera de uma convocação? Que dignidade há em não saber quanto se vai receber no fim do mês? E que liberdade existe num modelo em que o trabalhador precisa aceitar qualquer oferta para sobreviver?
Enquanto o setor supermercadista celebra seus recordes de faturamento e expande seus lucros, empurrar o trabalhador para um modelo de contrato intermitente é mais uma tentativa de repassar o custo da crise para quem está na base. Ao invés de mais precarização, é urgente discutir salários justos, redução da jornada sem redução de salário, ambientes de trabalho seguros e a valorização efetiva do trabalho.
O Brasil precisa de emprego com dignidade — e não de ilusões travestidas de liberdade.
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