Contrariando portaria da PM, Igreja Universal atua sem cadastro em quartéis do Paraná
Um programa da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) voltado a agentes de segurança pública tem atuado dentro de quartéis do Paraná mesmo sem cadastro formal no serviço de capelania da corporação. A atuação ocorre por meio da iniciativa chamada Universal nas Forças Policiais (UFP), que promove visitas de pastores a unidades policiais para oferecer assistência espiritual a policiais, bombeiros e guardas municipais.
Segundo levantamento do site Plural, pastores ligados ao programa visitaram quartéis do estado ao menos 145 vezes ao longo de 2025, conforme registros divulgados nas redes sociais da própria iniciativa. Policiais ouvidos pela reportagem, porém, afirmam que o número real de visitas pode ultrapassar mil no mesmo período.
Apesar da presença frequente, a Polícia Militar do Paraná informou, por meio da Diretoria de Gestão de Pessoas, que não há capelães voluntários vinculados à igreja cadastrados no serviço de assistência religiosa da corporação. O cadastro é exigido pela Portaria nº 1224, publicada em 2019, que regulamenta a atuação de religiosos nas unidades da PM e do Corpo de Bombeiros do Paraná.
De acordo com a norma, líderes religiosos interessados em atuar como capelães voluntários precisam cumprir requisitos formais, como formação teológica reconhecida pelo MEC, experiência pastoral mínima de três anos, autorização da instituição religiosa e aprovação da coordenação do serviço de capelania da corporação.
Mesmo sem esse registro, policiais relatam que os pastores da Universal participam com frequência das rotinas dos quartéis, principalmente durante as passagens de serviço, momento em que ocorrem a troca de plantão, inspeção de viaturas e formação das equipes. Nessas ocasiões, são realizadas orações, leituras bíblicas e distribuição de exemplares da Bíblia.
Relatos apontam que, embora a participação nas atividades religiosas não seja oficialmente obrigatória, a ausência pode gerar constrangimentos ou descontentamento por parte de superiores. Segundo fontes ouvidas pela reportagem, em alguns casos comandantes incentivam a presença dos agentes nas orações e cultos.
A atuação do programa também inclui participação de representantes da igreja em solenidades militares e eventos institucionais. Registros em redes sociais mostram pastores presentes em formaturas, passagens de comando e outras atividades oficiais.
Além disso, há publicações que indicam a realização de eventos envolvendo policiais em templos da igreja. Um exemplo citado pela reportagem mostra o encerramento de um curso de motociclista policial realizado no auditório do Templo Maior da Universal, em Curitiba, com participação de agentes da corporação.
Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que a presença crescente de grupos religiosos nas forças de segurança também está relacionada às condições de trabalho dos profissionais da área. Rotinas exaustivas, estresse constante e falta de apoio psicológico são apontados como fatores que contribuem para a procura por apoio espiritual.
Em nota, a Igreja Universal afirmou que o programa Universal nas Forças Policiais é uma ação social voltada ao apoio emocional e à valorização dos agentes de segurança pública. A instituição declarou que as atividades respeitam a liberdade religiosa dos participantes e que a participação ocorre de forma voluntária.
A reportagem também procurou a Secretaria de Segurança Pública do Paraná para comentar a atuação do programa nos quartéis, mas não houve manifestação até a publicação do conteúdo.
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