Deputados do RJ pedem atuação do governo federal e chamam ação de ‘chacina continuada’
Deputados progressistas condenaram nesta quarta-feira (29) a operação que matou ao menos 121 pessoas no Rio de Janeiro. O tema foi debatido no plenário da Câmara durante a manhã e, para os congressistas cariocas ouvidos pelo Brasil de Fato, o episódio marca uma virada na história da segurança pública e exige esforços contundentes para mudar a situação do país. Os parlamentares destacam ainda que a responsabilidade é “total” do governador Cláudio Castro (PL).
O deputado Chico Alencar (Psol-RJ) entende que a “chacina” promovida pela polícia carioca traz a necessidade de se discutir uma reforma na segurança pública do país. Segundo ele, a linha de atuação das polícias vai no caminho de focar no assassinato enquanto uma saída para os graves problemas.
“Do ponto de vista efetivo para população, isso muda para pior, porque se instituiu a morte e a violência como política. O que nós precisamos é, reconhecendo a gravidade da situação e o controle territorial por grupos organizados, fazer um planejamento, inteligência e integração das polícias”, disse ao Brasil de Fato.
A deputada Benedita da Silva (PT), ex-governadora do estado, seguiu uma linha parecida e disse: “nós estamos caracterizando como uma ‘chacina continuada’. Essa é mais uma das muitas que aconteceram e que virão sob a gestão de Cláudio Castro. Ao todo são mais de 120 mortes. O governo do presidente Lula repudia todas as facções criminosas, mas não podemos deixar de relatar os atentados contra o povo”.
Para os congressistas de esquerda, está claro que o crescimento do armamentismo incentivado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é responsável pelo aumento da violência. Na gestão do ex-mandatário, foram editados mais de 40 decretos para facilitar o acesso da população civil às armas. Foram cerca de 1.300 armas compradas por brasileiros por dia no período. O dado é do Instituto Sou da Paz.
Em declarações públicas nesta quarta, o governador carioca sustentou o “sucesso” da operação em seus discursos e chegou a dizer que “vítimas só tivemos 4 policiais”. O discurso de Castro repercutiu na extrema direita no Congresso. Deputados como Nikolas Ferreira (PL-MG) disseram que “a cada um policial morto era preciso morrer ao menos mil bandidos”.
Mesmo para deputados cariocas do centrão, a operação foi uma “tragédia” que vitimou uma série de inocentes. Esse é o caso do deputado Otoni de Paula (MDB-RJ). De acordo com ele, o chefe do Executivo carioca coloca o foco na violência e não em outros temas cruciais para a sociedade.
“O mesmo governador que financiou a operação de ontem é o governador que está em penúltimo no ranking de educação. Isso é sintomático. Eu sou pastor e só de gente de filho da Igreja morreram quatro. Então essa ideia de que só morreram bandidos é mentirosa. E esses jovens que morreram, ninguém vai atrás para apurar se realmente eram bandidos”, disse.
As cenas de violência pela polícia carioca mobilizaram os deputados que passaram a discutir a necessidade de que a PEC da Segurança Pública fosse aprovada. O projeto do governo está estacionado em uma comissão especial na Câmara e, segundo o presidente da Casa Baixa, Hugo Motta (Republicanos-PB), deverá ser votado até o final do ano. O foco do texto é articular uma atuação integrada entre estados e o governo federal.
Esse trecho foi boicotado por governadores de direita ao longo do ano, incluisve pelo próprio Claudio Castro, quee criticou a “perda de autonomia” dos governos estaduais na definição de sua própria política de segurança.
Em 2025, a Polícia Federal realizou 24 operações contra o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, apreendendo 190 armas e 60 prisões sem matar ninguém.
Na operação desta terça-feira (28), o governador disse ter pedido apoio do governo federal, o que foi negado pelo próprio ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski. De acordo com a pasta, o único contato do governador do Rio foi feito no começo do ano pedindo a transferência de líderes das facções criminosas para penitenciárias federais de segurança máxima. “Foi atendido. Nenhum pedido foi negado”, reforçou.
Alencar entende que não é possível chamar de “sucesso” uma operação que deixa centenas de mortos.
“O governador contraditoriamente diz que a operação foi um êxito, mas reclama que faltou apoio do Governo Federal, que ele não pediu, aliás, nem informou ao Ministério da Justiça sobre essa operação. A expectativa é que esse procedimento, depois desse desastre, mude”, afirma.
Até a aprovação da PEC, no entanto, o governo do estado não tem falado sobre o apoio aos familiares das pessoas mortas na operação. Para o deputado Tarcísio Motta (Psol-RJ), é preciso uma atuação imediata do governo federal para prestar apoio aos pais e irmãos dos mortos na operação, já que o governo do estado “não está fazendo nada”.
“O Ministério dos Direitos Humanos precisa estar no Rio de Janeiro e conversar, ouvir e lidar com as famílias. Hoje essas famílias estão completamente desamparadas pelo governo estadual. Se for depender do discurso de chacina do governador, que sem qualquer explicação maior continua dizendo que todos são bandidos, ele deixará as pessoas à própria sorte, as famílias à própria sorte num gesto absurdamente cruel e covarde”, afirmou.
O jogo de empurra feito entre o governo do Rio de Janeiro terminou com um recuo de Castro. Ele disse que não responderia mais ao ministério e que deixaria de fazer acusações.
A equipe de Lula afirma que, mesmo que Castro tente empurrar a responsabilidade da chacina para o governo federal, o governo não pediu nenhuma ajuda para realizar as operações e sequer informou ao governo sobre a realização da ação. Para Motta, ficou claro que a responsabilidade de uma operação “fracassada” foi inteiramente do governo estadual
“A opção de fazer uma operação sem nenhuma integração com as forças da Polícia Federal, inclusive no planejamento da ação, foi toda do governador Cláudio Castro, que optou por fazer uma operação midiática e eleitoral e enfrentar, portanto, o poderio do crime organizado sozinho, como ele mesmo disse, para tentar jogar no colo do Governo Federal a responsabilidade pela sua política genocida de segurança pública”, disse.
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