“Não foram inevitáveis”, diz geólogo sobre os frequentes deslizamentos na Serra do Mar

Junho 17, 2025 - 09:24
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“Não foram inevitáveis”, diz geólogo sobre os frequentes deslizamentos na Serra do Mar

Na última semana, mais um deslizamento interditou a BR-277, na Serra do Mar. O jb litoral fez uma reportagem especial em que conta que a EPR Litoral Pioneiro, concessionária responsável pela rodovia, retirou cerca de 3 mil toneladas de terra e vegetação do km 43, em Morretes, após o incidente ocorrido na madrugada de terça-feira (10).

Para o geólogo Abdel Hach, especialista em riscos geotécnicos, é mais um caso que poderia ser evitado.

“Em grande parte, os deslizamentos recentes poderiam ter sido ao menos minimizados ou até evitados com a aplicação rigorosa de medidas preventivas baseadas em ciência geotécnica atualizada. A Serra do Mar (BR-277, BR-116 e BR-376) é uma área historicamente conhecida por sua instabilidade natural, o que exige vigilância contínua, planejamento preventivo e intervenções tecnicamente bem fundamentadas”, afirmou.

Hach destaca que a culpa não pode recair apenas sobre as chuvas fortes.

“As chuvas intensas não são, por si só, a causa dos desastres, mas sim o gatilho final de processos acumulados de fragilização de taludes (encostas), drenagens insuficientes, intervenções mal planejadas e falhas de reconformação geomorfológica. A engenharia de contenção de encostas em regiões tropicais exige constante atualização e o uso de tecnologia preditiva, algo que ainda não é plenamente aplicado em todas as frentes de obra”, comentou.

Segundo o especialista, muitos pontos da Serra do Mar ainda contam com obras antigas, com soluções consideradas ultrapassadas diante das mudanças climáticas e da frequência cada vez maior de eventos extremos.

Mesmo onde há boas práticas, ele aponta que os cronogramas muitas vezes não acompanham a urgência das intervenções, resultando em contenções frágeis e encostas instáveis.

Hach também alerta para a dificuldade de unir critérios ambientais e soluções técnicas em locais onde o terreno exige cortes profundos ou intervenções mais drásticas.

“Há casos documentados em que o tempo entre a supressão (remoção) vegetal e a implantação das contenções ultrapassa o limite seguro, expondo o talude a eventos erosivos”, explicou.

“Um ponto crítico que deve ser trazido à tona é a falta de integração entre os dados de risco geológico e o planejamento rodoviário em tempo real. Hoje, muitos trechos da Serra do Mar são operados sem um sistema de alerta antecipado baseado em modelos hidrológicos e geotécnicos acoplados a estações meteorológicas de alta resolução”, disse.

Outro fator preocupante, segundo ele, é a pouca comunicação com os moradores e motoristas.

“Além disso, é necessário destacar que as comunidades do entorno, os usuários e os trabalhadores das frentes de obra estão frequentemente vulneráveis, com pouca informação sobre rotas de fuga, protocolos de emergência e percepção do risco. A gestão integrada de riscos deve envolver não só engenharia, mas também comunicação comunitária e governança interinstitucional”, disse.

Apesar da fiscalização ambiental realizada por órgãos como o IAT (no Paraná) e o Ibama, o geólogo afirma que a resposta do poder público ainda é, em muitos casos, tardia. Abdel Hach também defende mais presença técnica nas obras.

“Os eventos não foram inevitáveis; o que falta é antecipação institucional e compromisso com a engenharia baseada em dados, falta colocar profissionais na área de geologia e engenharia geológica à frente de estudos para mapear as zonas de vulnerabilidade geotécnica e planos de mitigação”, afirmou.

Na semana passada, o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) e o Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER/PR) assinaram um convênio para instalar sensores na Estrada da Graciosa (PR-410) e prevenir novos deslizamentos. Serão implantados acelerômetros, sensores de umidade do solo e pluviômetros nos trechos mais críticos. A expectativa é que o sistema esteja ativo antes do verão.

Nos próximos meses, a equipe do Simepar vai cruzar os dados históricos de deslizamentos com o volume de chuva acumulado, para determinar o ponto exato em que o solo começa a ceder.

“Nem sempre um temporal isolado causa deslizamentos. Às vezes o deslizamento ocorre após um acúmulo de chuva ao longo de vários dias”, explica José Eduardo Gonçalves, gerente de Hidrologia do Simepar.

O sistema contará com sensores de solo, pluviômetros e estações com GPS, microprocessador e acelerômetro, capazes de monitorar qualquer movimentação nas encostas em tempo real.

Por sua vez, o DER/PR finalizou, recentemente, o mapeamento das encostas da Graciosa, utilizando inclusive tecnologia aérea a laser. Dez pontos críticos foram identificados e terão obras de contenção. Três projetos já estão prontos para licitação e devem ser iniciados em breve, segundo o Governo.

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