Voz do Trabalhador – Vício em apostas online desafia famílias e escancara impactos no mercado de trabalho e nas relações laborais

Julho 18, 2025 - 11:14
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Voz do Trabalhador – Vício em apostas online desafia famílias e escancara impactos no mercado de trabalho e nas relações laborais

Promessas de lucro fácil, influenciadores exibindo ganhos astronômicos e plataformas que operam 24 horas por dia: os jogos de apostas online, as chamadas "bets", estão longe de ser apenas uma forma de entretenimento. Nos bastidores do vício crescente que atinge milhares de brasileiros, surgem consequências diretas para o mercado de trabalho, relações profissionais e a economia real. E o problema tem chegado às empresas.

A Confederação Nacional do Comércio (CNC) estima que o setor varejista perdeu R$ 109 bilhões apenas em 2024 em função dos impactos econômicos das apostas. Em muitos casos, trabalhadores deixam de cumprir obrigações profissionais por estarem mergulhados em jogos online — um comportamento que vem preocupando empregadores e especialistas em saúde mental e segurança do trabalho.

“O vício em apostas afeta diretamente a produtividade e a concentração no ambiente corporativo. Há trabalhadores que utilizam parte da jornada de trabalho para apostar, negligenciando metas e prejudicando a equipe”, alerta o economista-chefe da CNC, Felipe Tavares.

Além das perdas econômicas, o impacto também é visível no sistema de seguridade social. De acordo com o Ministério da Previdência Social, já foram concedidos 402 benefícios por incapacidade temporária, relacionados a transtornos causados por jogos em 2024 — 61 deles somente em Minas Gerais.

O vício, que muitas vezes começa como uma brincadeira ou curiosidade incentivada por propagandas chamativas e influenciadores digitais, rapidamente se transforma em uma compulsão com consequências drásticas. O psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), explica que o funcionamento cerebral de uma pessoa viciada em apostas se assemelha ao de alguém dependente de álcool ou drogas.

“Quando esse comportamento passa a tomar horas do dia, inclusive durante o expediente, há prejuízos profissionais e risco de desligamento. A pessoa começa a falhar em compromissos, se isola e pode desenvolver quadros de ansiedade, depressão e até pensamentos suicidas”, explica.

O ambiente de trabalho é uma das primeiras áreas impactadas. Em algumas empresas, gestores já relatam a necessidade de bloqueio de sites de apostas nos computadores corporativos. Há relatos de trabalhadores com dívidas impagáveis, empréstimos consignados comprometendo boa parte do salário e, em casos extremos, demissão por justa causa motivada por negligência no desempenho.

Casos como o de uma mãe, que preferiu não se identificar, revelam a dimensão do problema: a filha, universitária, chegou a deixar de comer para continuar apostando, acumulando um prejuízo de mais de R$ 200 mil. Em outro exemplo, uma mulher viu o marido abandonar compromissos profissionais e endividar a família por conta das apostas.

"Ele começou a faltar no trabalho, a negligenciar tarefas. A dívida do cartão virou uma bola de neve. Ele só pensava em apostar", contou à reportagem.

Essas situações, cada vez mais comuns, revelam que a compulsão por jogos online ultrapassa a esfera pessoal e atinge diretamente a vida laboral. A perda de renda, a instabilidade emocional e o comprometimento do desempenho criam um ciclo vicioso que ameaça não só o bem-estar.

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