Canal do Porto de Paranaguá será operado por consórcio internacional, mas cidade ainda espera por retorno social e ambiental
Após dez lances, o Consórcio Canal Galheta Dragagem (CCGD), formado pela brasileira FTS e pela belga DEME, venceu o leilão que concede à iniciativa privada a operação do Canal de Acesso ao Porto de Paranaguá pelos próximos 25 anos. O contrato prevê R$ 1,23 bilhão em investimentos e um desconto de 12,63% na tarifa cobrada dos usuários. A concessão é a primeira do tipo no país e promete ampliar o calado do canal de 13,3 para 15,5 metros, permitindo a chegada de embarcações maiores.
O projeto foi amplamente comemorado por autoridades estaduais e federais como um marco de modernização e eficiência. No entanto, o anúncio também levanta questionamentos: quem, de fato, se beneficia desses investimentos bilionários? E o que ganha a cidade de Paranaguá, que convive há décadas com problemas crônicos de mobilidade, moradia e saneamento, apesar de abrigar um dos portos mais lucrativos da América Latina?
Embora o governo destaque o impacto positivo para a economia estadual, ainda não há previsão clara de compensações diretas para o município, que sofre as consequências sociais e ambientais da intensa movimentação portuária. O aumento do tráfego pesado, a pressão sobre a infraestrutura urbana e os impactos ambientais das dragagens permanentes — que remexem o fundo marinho e alteram o ecossistema da baía — seguem sendo pontos de preocupação.
O Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA) menciona critérios de sustentabilidade, mas a população local pouco participou das discussões. As audiências públicas ocorreram de forma técnica e distante da realidade de quem vive próximo ao porto ou depende dele para trabalhar. A dragagem, necessária para aprofundar o canal, levanta dúvidas sobre o destino dos sedimentos e a segurança da fauna marinha, especialmente em uma área próxima à Ilha do Mel, patrimônio natural e turístico do Paraná.
A privatização de mais uma etapa do Porto de Paranaguá também reacende o debate sobre o papel do Estado e o retorno à cidade que sustenta o sistema portuário. A outorga de R$ 276 milhões, somada aos valores anuais que o consórcio pagará, reforça o caixa do porto e do governo, mas pouco se fala em investimentos locais — seja em infraestrutura urbana, proteção ambiental ou melhoria de serviços públicos.
Paranaguá continua sendo o coração logístico do Paraná, mas vive à margem do dinheiro que circula por ela. O canal vai se aprofundar, os navios vão crescer, e as cargas vão render ainda mais. A dúvida é se a prosperidade que chega pelos mares algum dia alcançará também as ruas da cidade.
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